segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O voo

O voo

Era mais uma das muitas viagens de avião que aquele executivo fazia todas as semanas. Logo que entrou na aeronave, tratou de afivelar o cinto e tentar cochilar. Já era madrugada ele estava muito cansado. Acordou algumas dezenas de minutos depois. Os passageiros dormiam e as luzes já haviam sido desligadas, sobrando apenas aqueles pequenos pontos de luz que ficam acesos para evitar a escuridão absoluta.

Por mais acostumado que estivesse, o homem sempre se sentia incomodado com viagens noturnas. Ficava imaginando o avião, tão pequenino e frágil, no meio de um mar de escuridão. Aquilo o fazia se sentir terrivelmente impotente e indefeso. O desconforto ficava ainda maior com as turbulências, que chacoalhavam a aeronave e faziam apitar a todo instante as luzes de “coloque o cinto”.

Observou ao redor e percebeu, satisfeito, que era o único da sua fileira. Assim poderia dormir mais à vontade. Mas antes iria pedir um pouco de água, pois acordara com sede. Apertou o botão acima de sua poltrona para chamar o serviço de bordo. O botão acendeu, fazendo um som. Uma aeromoça saiu da cabine dianteira da tripulação e foi em direção ao executivo.

Mesmo com a penumbra do ambiente, o homem pôde observar bem aquela mulher. Muito bonita, tinha um rosto branco e afilado. Cabelo longo, loiro, bem fino, caindo sobre a testa em forma de franja. Via-se ainda uma charmosa pinta no canto esquerdo da boca.

A aeromoça, com um sorriso simpático, perguntou:
- Pois não, senhor?
- Traga-me um copo com água, por favor.
- O senhor aceita um salgadinho ou biscoito? Talvez um suco?
- Não, obrigado. Apenas a água.
- Sim senhor, trago em um minuto. Disse a aeromoça, voltando à cabine da frete.

O homem também percebeu que ela vestia um modelo de uniforme antigo. A companhia aérea adotara um novo há poucas semanas. Como viajava frequentemente, ele sabia identificar bem as diferenças. O novo modelo tinha um aspecto mais esportivo e jovial, passando um ar de modernidade, enquanto o antigo tinha um corte clássico e formal. Decidiu que, quando a loira retornasse com a água, ele a perguntaria o porquê da nova mudança.

Cerca de dez minutos se passaram, mas a aeromoça não retornava. O executivo apertou o botão novamente, mas dessa vez ele não acendeu nem emitiu nenhum som. Parecia quebrado. Já um pouco irritado com aquele descaso, o passageiro se dirigiu à cabine da tripulação. As luzes do corredor continuavam apagadas, mas os pontos de luz eram suficientes para orientá-lo.

Na cabine, esta sim com a luz acesa, estavam um comissário e três aeromoças, que o executivo ainda não tinha visto. Todos vestiam o uniforme novo. Ele percebeu esse detalhe, mas estava impaciente demais para querer saber algo sobre fardamentos idiotas.

Tratou de reclamar com eles sobre a demora em trazerem sua água. Entretanto os funcionários responderam que não ouviram nenhum chamado, e nenhum deles tinha saído da cabine nos últimos minutos. O homem insistiu, dizendo que fora atendido pela “colega loirinha” deles. Os quatro se entreolharam com curiosidade, e uma das moças disse que, por coincidência, todos os funcionários naquele voo eram morenos, portanto seria impossível alguém loiro tê-lo atendido. O homem insistiu e descreveu detalhadamente a aeromoça com quem conversara.

Depois de sua descrição, o semblante de todos tornou-se imediatamente pálido e assustado. O comissário, titubeante, começou a contar a história de Rebeca, uma aeromoça que, há pouco mais de cinco meses, sofrera um ataque cardíaco fatal em pleno voo, em decorrência de uma doença genética que ela desconhecia. A companhia aérea imprimiu centenas de panfletos em homenagem à falecida, com sua foto e mensagens de adeus, e os distribuiu entre todos os funcionários. O comissário vasculhou por um instante uma pequena gaveta da cabine, achou um daqueles panfletos e o estendeu ao executivo. Após ver a foto, o homem sentiu suas pernas e braços ficaram fracos. A mulher da foto não era outra senão a aeromoça que o atendera.

Perplexo, não disse nenhuma palavra. Apenas se virou e caminhou lentamente até sentar em sua poltrona. Olhando para a escuridão da janela e ainda tentando compreender tudo o que aconteceu, percebeu com sua visão periférica que alguém da tripulação saía da cabine em sua direção, certamente para conversar sobre o assunto. Quando a pessoa chegou, ele se virou para ela.

No meio das sombras, segurando um copo com água, Rebeca o olhava com um sorriso diabólico.

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