sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A verdade sobre o Castelo Rá-Tim-Bum

A verdade sobre o Castelo Rá-Tim-Bum

Existem teorias que fazem interpretações nem um pouco infantis sobre o seriado Castelo Rá-Tim-Bum.

Tudo o que se passa nas histórias é fruto da imaginação do protagonista Nino. Na realidade, ele é um garoto órfão que vive com os tios numa casa sombria e triste, sem amigos e profundamente infeliz. Seu tio é um velho mal humorado, ausente e que tem assustadoras crises de fúria. Sua tia é uma pobre mulher presa em um casamento infeliz, que passa os dias reclusa em seu quarto e não dedica quase nenhuma atenção ao sobrinho. Nino sequer vai à escola. Sua educação é limitada a uma ou outra aula que seu tio, com muita má vontade, lhe dá.


Para sobreviver nesse ambiente hostil, a mente de Nino criou um refúgio psicológico. O garoto passou a fantasiar que morava em um castelo encantado, colorido e cheio de criaturas mágicas falantes. Algo perfeitamente de acordo com o imaginário de uma criança. O velho gato da casa virou um felino sábio, uma espécie de professor (o que mostra a vontade de Nino de ir para a escola). A planta pouco cuidada que fica na sala virou uma grande árvore. A minhoca encontrada na terra do vaso se tornou uma cobra amiga. E até o ninho de aranha contido nessa planta se transformou na casa de simpáticos passarinhos cantores.

Os tios agora são bruxos bondosos e alegres, embora o menino de vez em quando relembre os ataques de raiva de tio Victor (“raios e trovões!”). Nino se tornou um aprendiz de feiticeiro, algo estimulante que deixa o garoto mais satisfeito com sua própria existência.

As crianças Pedro, Zeca e Biba também são imaginários. Eles satisfazem a vontade de Nino de ter um amigo da sua idade (Pedro), um irmão mais novo (Zeca) e uma possível namoradinha (Biba, embora subconsciente de Nino não tenha conseguido criar nenhuma história de romance com ela, já que o garoto não tem experiência nisso).

Doutor Abobrinha, o homem que tenta demolir o Castelo para construir um prédio, é uma ferramenta da mente de Nino que luta para acordá-lo de sua fantasia. Demolir o castelo mágico e substituí-lo por um prédio convencional é a tentativa de fazer Nino sair de seu mundo encantado e voltar para a realidade fria, racional e enfadonha.

Entretanto, a imaginação do garoto é muito forte, sempre vencendo esse duelo.

sábado, 24 de setembro de 2011

O mistério do albergue

O mistério do albergue

Um grupo de jovens chegou em um albergue no domingo pela manhã para se hospedar. Eram seis no total. Todos rapazes. Era período de baixa-estação, havendo poucos hóspedes no lugar.

A rotina do grupo era a seguinte: saíam após o café da manhã, pouco depois das 9h. Almoçavam fora. Retornavam por volta das 17h, gastando apenas o tempo suficiente para tomar banho, trocar de roupa e novamente sair. Voltavam de madrugada, entre 1h e 2h. Seus momentos no lugar, embora breves, sempre chamavam a atenção pela alegria de todos, sempre muito falantes e risonhos.

A camareira visitava os quartos todos os dias a partir das 14h. Varria o chão, colhia o lixo e arrumava os lençóis. Era a única pessoa além dos hóspedes que podia entrar nos aposentos.

No quinto dia de estadia, eles chegaram ao albergue mais uma vez em torno das duas da madrugada. Desta vez, no entanto, não traziam a mesma alegria de antes. Estavam abatidos, sérios, e não disseram nenhuma palavra. Simplesmente entraram no quarto e fecharam a porta. De lá não se ouviu um só ruído pelo resto da noite. Devia ser o cansaço de tantos dias dormindo pouco e saindo muito, acreditaram os funcionários.

Essa tese ganhou força quando, na manhã seguinte, pela primeira vez não foram tomar café. Tudo continuava silêncio no quarto. Finalmente, às quinze horas, a camareira resolveu checar se estava tudo bem. Bateu à porta, mas não obteve resposta. Forçou a maçaneta, que continuava trancada. Bateu na porta novamente, agora mais forte e insistentemente, falando alto e pedindo para que alguém respondesse.

Nada.

Preocupada, solicitou ao vigia que arrombasse a fechadura. Feito isso, adentraram rapidamente no quarto.

Lá dentro, todas as janelas e cortinas se encontravam fechadas. O ventilador de teto estava desligado, o que tornava o local muito quente e abafado. Acharam apenas um dos jovens, deitado de bruços em sua cama. Vestia a mesma roupa com a qual chegara. Nem mesmo tirou os tênis.

Não havia vestígio dos outros. As seis cópias da chave do aposento, que cada um havia ganhado na recepção, estavam sobre uma mesinha. As chaves dos armários individuais penduravam nas respectivas fechaduras. Notou-se que todas as bagagens haviam sumido, exceto as do rapaz que dormia. As camas estavam com lençóis desarrumados. Portanto foram usadas depois da chegada do grupo naquela madrugada.

As janelas do albergue eram gradeadas e o teto era forrado. Não havia passagem de emergência. Deste modo, a única saída era a porta da recepção. Simplesmente não havia como deixar o prédio por outro meio. As paredes e o chão de todo o albergue estavam intactos, descartando a possibilidade (por si só já improvável) de escavação. Por fim, as câmeras do circuito interno instaladas no corredor provaram definitivamente que, depois que todos eles entraram no quarto às 2h16min, não houve mais nenhuma movimentação.

O rapaz dormia pesadamente e não houve maneira de acordá-lo. Chamaram uma ambulância, cujos paramédicos informaram que ele estava em coma. Exames não encontraram nenhum tipo de drogas ou substâncias estranhas em seu corpo. Nem mesmo álcool.

Através da ficha que os jovens preencheram no primeiro dia de hospedagem, o albergue pôde entrar em contato com seus familiares, que disseram aflitos não ter nenhuma informação sobre o paradeiro de ninguém do grupo.

Depois de meses de investigações, o mistério foi considerado sem solução. Restava aos detetives torcer para que o único “sobrevivente” acordasse do coma e pudesse ajudar no esclarecimento daquela situação absurda.

Seis longos anos depois, o rapaz finalmente despertou. Ficou todo aquele tempo no mesmo quarto do hospital, no décimo primeiro andar. A princípio, sofria de uma leve amnésia: não era capaz de se lembrar das últimas semanas que antecederam o coma. Gradativamente, com ajuda de psicólogos, em poucos dias foi recobrando a memória recente, até chegar o momento que todos aguardavam: fazê-lo recordar dos eventos no albergue. No quarto estavam ele, uma psicóloga, um médico, seus pais e um investigador.

O jovem não se lembrou de imediato. Contudo, suas feições mostravam que ele estava, aos poucos, recordando. Não eram memórias boas. Seu rosto foi desenhando, a cada segundo que passava, um semblante mais sério, preocupado. Sua face empalideceu. O olhar ficou cada vez mais distante e assustado.

Finalmente assumiu uma cara de horror, levou as mãos à cabeça, soltou o berro mais agonizante que as pessoas presentes já haviam ouvido, deu um salto brusco da cama e, antes que alguém pudesse alcançá-lo, atravessou a janela de vidro, que estava fechada, despencando para o chão da rua. Todos correram para a janela.

Lá embaixo, pedaços do vidro cobriam a calçada do hospital.


Não havia nenhum corpo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O voo

O voo

Era mais uma das muitas viagens de avião que aquele executivo fazia todas as semanas. Logo que entrou na aeronave, tratou de afivelar o cinto e tentar cochilar. Já era madrugada ele estava muito cansado. Acordou algumas dezenas de minutos depois. Os passageiros dormiam e as luzes já haviam sido desligadas, sobrando apenas aqueles pequenos pontos de luz que ficam acesos para evitar a escuridão absoluta.

Por mais acostumado que estivesse, o homem sempre se sentia incomodado com viagens noturnas. Ficava imaginando o avião, tão pequenino e frágil, no meio de um mar de escuridão. Aquilo o fazia se sentir terrivelmente impotente e indefeso. O desconforto ficava ainda maior com as turbulências, que chacoalhavam a aeronave e faziam apitar a todo instante as luzes de “coloque o cinto”.

Observou ao redor e percebeu, satisfeito, que era o único da sua fileira. Assim poderia dormir mais à vontade. Mas antes iria pedir um pouco de água, pois acordara com sede. Apertou o botão acima de sua poltrona para chamar o serviço de bordo. O botão acendeu, fazendo um som. Uma aeromoça saiu da cabine dianteira da tripulação e foi em direção ao executivo.

Mesmo com a penumbra do ambiente, o homem pôde observar bem aquela mulher. Muito bonita, tinha um rosto branco e afilado. Cabelo longo, loiro, bem fino, caindo sobre a testa em forma de franja. Via-se ainda uma charmosa pinta no canto esquerdo da boca.

A aeromoça, com um sorriso simpático, perguntou:
- Pois não, senhor?
- Traga-me um copo com água, por favor.
- O senhor aceita um salgadinho ou biscoito? Talvez um suco?
- Não, obrigado. Apenas a água.
- Sim senhor, trago em um minuto. Disse a aeromoça, voltando à cabine da frete.

O homem também percebeu que ela vestia um modelo de uniforme antigo. A companhia aérea adotara um novo há poucas semanas. Como viajava frequentemente, ele sabia identificar bem as diferenças. O novo modelo tinha um aspecto mais esportivo e jovial, passando um ar de modernidade, enquanto o antigo tinha um corte clássico e formal. Decidiu que, quando a loira retornasse com a água, ele a perguntaria o porquê da nova mudança.

Cerca de dez minutos se passaram, mas a aeromoça não retornava. O executivo apertou o botão novamente, mas dessa vez ele não acendeu nem emitiu nenhum som. Parecia quebrado. Já um pouco irritado com aquele descaso, o passageiro se dirigiu à cabine da tripulação. As luzes do corredor continuavam apagadas, mas os pontos de luz eram suficientes para orientá-lo.

Na cabine, esta sim com a luz acesa, estavam um comissário e três aeromoças, que o executivo ainda não tinha visto. Todos vestiam o uniforme novo. Ele percebeu esse detalhe, mas estava impaciente demais para querer saber algo sobre fardamentos idiotas.

Tratou de reclamar com eles sobre a demora em trazerem sua água. Entretanto os funcionários responderam que não ouviram nenhum chamado, e nenhum deles tinha saído da cabine nos últimos minutos. O homem insistiu, dizendo que fora atendido pela “colega loirinha” deles. Os quatro se entreolharam com curiosidade, e uma das moças disse que, por coincidência, todos os funcionários naquele voo eram morenos, portanto seria impossível alguém loiro tê-lo atendido. O homem insistiu e descreveu detalhadamente a aeromoça com quem conversara.

Depois de sua descrição, o semblante de todos tornou-se imediatamente pálido e assustado. O comissário, titubeante, começou a contar a história de Rebeca, uma aeromoça que, há pouco mais de cinco meses, sofrera um ataque cardíaco fatal em pleno voo, em decorrência de uma doença genética que ela desconhecia. A companhia aérea imprimiu centenas de panfletos em homenagem à falecida, com sua foto e mensagens de adeus, e os distribuiu entre todos os funcionários. O comissário vasculhou por um instante uma pequena gaveta da cabine, achou um daqueles panfletos e o estendeu ao executivo. Após ver a foto, o homem sentiu suas pernas e braços ficaram fracos. A mulher da foto não era outra senão a aeromoça que o atendera.

Perplexo, não disse nenhuma palavra. Apenas se virou e caminhou lentamente até sentar em sua poltrona. Olhando para a escuridão da janela e ainda tentando compreender tudo o que aconteceu, percebeu com sua visão periférica que alguém da tripulação saía da cabine em sua direção, certamente para conversar sobre o assunto. Quando a pessoa chegou, ele se virou para ela.

No meio das sombras, segurando um copo com água, Rebeca o olhava com um sorriso diabólico.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Companheiro de quarto

Companheiro de quarto

Alta madrugada. Você dormia profundamente, até acordar atordoado com passos fortes, que devem ser do seu companheiro de apartamento, vindos da sala. Apesar de estar com muito sono, ainda sem raciocinar direito, você já está irritado. Se ele estava com insônia e resolveu caminhar no apartamento, tudo bem. Mas deveria fazer isso em silêncio. Os passos eram lentos, mas firmes. Ficavam ainda mais fortes e ecoantes no silêncio da madrugada. “Esse folgado só pode estar fazendo de propósito”, você pensa.

Ainda cambaleante de sono, você se levanta. Seu quarto está completamente escuro. Apenas poucos raios de luz atravessam as frestas da cortina da janela. Você se enrola no lençol e se prepara para dar uma bronca no colega.

Antes disso, sua sobriedade finalmente vem à tona e você se recorda de que há dois dias seu amigo saiu em longa viagem.

sábado, 6 de agosto de 2011

Estafa

Estafa

O despertador já estava tocando há mais de meia hora quando ela finalmente acordou. Tivera uma péssima noite de sono, cheia de sonhos confusos e pesadelos. Levantou sentindo-se muito mais cansada do que quando fora dormir. Mesmo assim, correu para tomar banho e se vestir.

Não tomou o café da manhã, na tentativa diminuir o atraso. Seu esforço, contudo, não foi suficiente para evitar a bronca do chefe no escritório, que só não foi maior porque ele nitidamente amansou seu discurso ao perceber o abatimento da funcionária. Todos, aliás, notaram seu cansaço.

O trabalho, sempre desgastante e estressante, estava ainda mais pesado, muito por conta daquele péssimo início de dia. Sentia-se como um carro funcionando na reserva de combustível.

Veio a noite, terminando finalmente a longa jornada de trabalho. A mulher seguiu o caminho de volta para seu apartamento. Jogar-se na cama era a única coisa que desejava.

Quando chegou percebeu que, na pressa da manhã, esquecera-se de trancar a porta, que estava apenas fechada. Isso não a preocupou tanto. O condomínio era seguro e ela tinha bom relacionamento com quase todos os vizinhos do andar. Mesmo assim, achou prudente entrar no apartamento em alerta.

Entrou na sala, mas não acendeu nenhuma lâmpada. As luzes que vinham de fora, pelas janelas, evitavam a escuridão absoluta. Dali mesmo percebeu assustada que havia um vulto no seu quarto, deitado em sua cama. Foi silenciosamente até uma estante e pegou o revolver que ela mantinha escondido para emergências. Armada, caminhou vagarosamente até a porta do quarto.

Percebeu que o estranho não estava apenas deitado. Estava imóvel, talvez dormindo.

Chegando mais perto, veio a revelação: notou perplexa que aquele vulto não era de um estranho. Era ela mesma quem estava ali, deitada.


Morta.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Nariz

Nariz

O
casal foi acordado em seu quarto no começo da madrugada pela filha de 9 anos. A menina vestia seu pijama cor de rosa e trazia abraçado o inseparável ursinho de pelúcia.

A criança aparentava estar com sono e irritada. Reclamou com os pais que "o palhaçinho fica me chamando o tempo todo para brincar e não me deixa dormir".

A filha tinha acabado de acordar de um sonho, pensou o casal. O pai, rindo, abraçou a menina e disse: “Olha, se o palhaço continuar lhe chateando, puxe o nariz dele bem forte. Aí ele vai parar!”.

A menina abriu um largo sorriso, achou aquilo divertido. Deu um beijo de boa noite no pai e na mãe, fechou a porta do quarto deles e foi novamente para o seu quarto. Tudo voltou ao silêncio.

Meia hora depois, a mãe resolveu conferir se a menina havia conseguido dormir, coisa que o pai já estava fazendo.

Dali a pouco o marido foi abruptamente despertado pelo grito da esposa. Vinha do quarto da filha. Correu até lá o mais rápido que pôde, tropeçando nos objetos escondidos pela escuridão da casa. No quarto da filha, apenas a luz do abajur estava acesa. Lá encontrou a mulher desesperada, apontando para cama da criança. A menina havia sumido. Em cima da cama estavam apenas o seu inseparável ursinho de pelúcia...

E um nariz de palhaço.