terça-feira, 2 de agosto de 2011

O velório

O velório

A mulher acordou bem cedo e se dirigiu até a igreja para fazer a sua confissão mensal.

O tempo estava muito fechado. Não chovia, mas as nuvens cor de chumbo no céu denunciavam que em pouco tempo cairia um temporal. As luzes da rua continuavam acesas e o vento frio tornava o dia entristecedor.

Mesmo com esse cenário desagradável, ela resolveu ir. Fazia parte de uma promessa realizar a confissão no primeiro dia de cada mês, tão cedo quanto possível.

Quando se aproximava, viu que no jardim, a uns dez metros da porta principal do templo, havia um grupo de freiras ao redor de um caixão. Nenhuma delas notou a chegada da mulher, que preferiu não se aproximar e entrou apressadamente na igreja.

Lá dentro ainda estava vazio de fiéis. Apenas o padre estava sentado em um dos bancos. O pároco estava visivelmente abatido. Ele explicou que “um dos funcionários da igreja cometeu suicídio na noite anterior”. Perfurara com uma faca o próprio coração. As freiras estavam fazendo um velório no jardim, ambiente no qual o tal homem adorava ficar.

A mulher transmitiu seus pêsames e disse que queria se confessar. O padre, com olhar marejado, aproveitou a ocasião para ensinar: “O pior pecado que existe é o suicídio. Quem tira a própria vida simplesmente nega o maior presente que recebeu de Deus. O perdão é extremamente difícil”. E balançou a cabeça em reprovação.

Após confessar-se e receber a penitência, a mulher se despediu do padre, que permaneceu no confessionário, ainda mantendo o semblante muito triste pela trágica morte do funcionário.

Quando atravessou a porta do templo, a mulher viu que os primeiros pingos de chuva começavam a cair. O corpo estava sendo levado para dentro da igreja, acompanhado pelas freiras. A procissão passou bem em sua frente. A tampa do caixão tinha uma grande janela de vidro, e dessa vez a mulher não resistiu em observar o morto.

Era o padre.

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