O mistério do albergue
Um grupo de jovens chegou em um albergue no domingo pela manhã para se hospedar. Eram seis no total. Todos rapazes. Era período de baixa-estação, havendo poucos hóspedes no lugar.
A rotina do grupo era a seguinte: saíam após o café da manhã, pouco depois das 9h. Almoçavam fora. Retornavam por volta das 17h, gastando apenas o tempo suficiente para tomar banho, trocar de roupa e novamente sair. Voltavam de madrugada, entre 1h e 2h. Seus momentos no lugar, embora breves, sempre chamavam a atenção pela alegria de todos, sempre muito falantes e risonhos.
A camareira visitava os quartos todos os dias a partir das 14h. Varria o chão, colhia o lixo e arrumava os lençóis. Era a única pessoa além dos hóspedes que podia entrar nos aposentos.
No quinto dia de estadia, eles chegaram ao albergue mais uma vez em torno das duas da madrugada. Desta vez, no entanto, não traziam a mesma alegria de antes. Estavam abatidos, sérios, e não disseram nenhuma palavra. Simplesmente entraram no quarto e fecharam a porta. De lá não se ouviu um só ruído pelo resto da noite. Devia ser o cansaço de tantos dias dormindo pouco e saindo muito, acreditaram os funcionários.
Essa tese ganhou força quando, na manhã seguinte, pela primeira vez não foram tomar café. Tudo continuava silêncio no quarto. Finalmente, às quinze horas, a camareira resolveu checar se estava tudo bem. Bateu à porta, mas não obteve resposta. Forçou a maçaneta, que continuava trancada. Bateu na porta novamente, agora mais forte e insistentemente, falando alto e pedindo para que alguém respondesse.
Nada.
Preocupada, solicitou ao vigia que arrombasse a fechadura. Feito isso, adentraram rapidamente no quarto.
Lá dentro, todas as janelas e cortinas se encontravam fechadas. O ventilador de teto estava desligado, o que tornava o local muito quente e abafado. Acharam apenas um dos jovens, deitado de bruços em sua cama. Vestia a mesma roupa com a qual chegara. Nem mesmo tirou os tênis.
Não havia vestígio dos outros. As seis cópias da chave do aposento, que cada um havia ganhado na recepção, estavam sobre uma mesinha. As chaves dos armários individuais penduravam nas respectivas fechaduras. Notou-se que todas as bagagens haviam sumido, exceto as do rapaz que dormia. As camas estavam com lençóis desarrumados. Portanto foram usadas depois da chegada do grupo naquela madrugada.
As janelas do albergue eram gradeadas e o teto era forrado. Não havia passagem de emergência. Deste modo, a única saída era a porta da recepção. Simplesmente não havia como deixar o prédio por outro meio. As paredes e o chão de todo o albergue estavam intactos, descartando a possibilidade (por si só já improvável) de escavação. Por fim, as câmeras do circuito interno instaladas no corredor provaram definitivamente que, depois que todos eles entraram no quarto às 2h16min, não houve mais nenhuma movimentação.
O rapaz dormia pesadamente e não houve maneira de acordá-lo. Chamaram uma ambulância, cujos paramédicos informaram que ele estava em coma. Exames não encontraram nenhum tipo de drogas ou substâncias estranhas em seu corpo. Nem mesmo álcool.
Através da ficha que os jovens preencheram no primeiro dia de hospedagem, o albergue pôde entrar em contato com seus familiares, que disseram aflitos não ter nenhuma informação sobre o paradeiro de ninguém do grupo.
Depois de meses de investigações, o mistério foi considerado sem solução. Restava aos detetives torcer para que o único “sobrevivente” acordasse do coma e pudesse ajudar no esclarecimento daquela situação absurda.
Seis longos anos depois, o rapaz finalmente despertou. Ficou todo aquele tempo no mesmo quarto do hospital, no décimo primeiro andar. A princípio, sofria de uma leve amnésia: não era capaz de se lembrar das últimas semanas que antecederam o coma. Gradativamente, com ajuda de psicólogos, em poucos dias foi recobrando a memória recente, até chegar o momento que todos aguardavam: fazê-lo recordar dos eventos no albergue. No quarto estavam ele, uma psicóloga, um médico, seus pais e um investigador.
O jovem não se lembrou de imediato. Contudo, suas feições mostravam que ele estava, aos poucos, recordando. Não eram memórias boas. Seu rosto foi desenhando, a cada segundo que passava, um semblante mais sério, preocupado. Sua face empalideceu. O olhar ficou cada vez mais distante e assustado.
Finalmente assumiu uma cara de horror, levou as mãos à cabeça, soltou o berro mais agonizante que as pessoas presentes já haviam ouvido, deu um salto brusco da cama e, antes que alguém pudesse alcançá-lo, atravessou a janela de vidro, que estava fechada, despencando para o chão da rua. Todos correram para a janela.
Lá embaixo, pedaços do vidro cobriam a calçada do hospital.
Não havia nenhum corpo.
Um grupo de jovens chegou em um albergue no domingo pela manhã para se hospedar. Eram seis no total. Todos rapazes. Era período de baixa-estação, havendo poucos hóspedes no lugar.
A rotina do grupo era a seguinte: saíam após o café da manhã, pouco depois das 9h. Almoçavam fora. Retornavam por volta das 17h, gastando apenas o tempo suficiente para tomar banho, trocar de roupa e novamente sair. Voltavam de madrugada, entre 1h e 2h. Seus momentos no lugar, embora breves, sempre chamavam a atenção pela alegria de todos, sempre muito falantes e risonhos.
A camareira visitava os quartos todos os dias a partir das 14h. Varria o chão, colhia o lixo e arrumava os lençóis. Era a única pessoa além dos hóspedes que podia entrar nos aposentos.
No quinto dia de estadia, eles chegaram ao albergue mais uma vez em torno das duas da madrugada. Desta vez, no entanto, não traziam a mesma alegria de antes. Estavam abatidos, sérios, e não disseram nenhuma palavra. Simplesmente entraram no quarto e fecharam a porta. De lá não se ouviu um só ruído pelo resto da noite. Devia ser o cansaço de tantos dias dormindo pouco e saindo muito, acreditaram os funcionários.
Essa tese ganhou força quando, na manhã seguinte, pela primeira vez não foram tomar café. Tudo continuava silêncio no quarto. Finalmente, às quinze horas, a camareira resolveu checar se estava tudo bem. Bateu à porta, mas não obteve resposta. Forçou a maçaneta, que continuava trancada. Bateu na porta novamente, agora mais forte e insistentemente, falando alto e pedindo para que alguém respondesse.
Nada.
Preocupada, solicitou ao vigia que arrombasse a fechadura. Feito isso, adentraram rapidamente no quarto.
Lá dentro, todas as janelas e cortinas se encontravam fechadas. O ventilador de teto estava desligado, o que tornava o local muito quente e abafado. Acharam apenas um dos jovens, deitado de bruços em sua cama. Vestia a mesma roupa com a qual chegara. Nem mesmo tirou os tênis.
Não havia vestígio dos outros. As seis cópias da chave do aposento, que cada um havia ganhado na recepção, estavam sobre uma mesinha. As chaves dos armários individuais penduravam nas respectivas fechaduras. Notou-se que todas as bagagens haviam sumido, exceto as do rapaz que dormia. As camas estavam com lençóis desarrumados. Portanto foram usadas depois da chegada do grupo naquela madrugada.
As janelas do albergue eram gradeadas e o teto era forrado. Não havia passagem de emergência. Deste modo, a única saída era a porta da recepção. Simplesmente não havia como deixar o prédio por outro meio. As paredes e o chão de todo o albergue estavam intactos, descartando a possibilidade (por si só já improvável) de escavação. Por fim, as câmeras do circuito interno instaladas no corredor provaram definitivamente que, depois que todos eles entraram no quarto às 2h16min, não houve mais nenhuma movimentação.
O rapaz dormia pesadamente e não houve maneira de acordá-lo. Chamaram uma ambulância, cujos paramédicos informaram que ele estava em coma. Exames não encontraram nenhum tipo de drogas ou substâncias estranhas em seu corpo. Nem mesmo álcool.
Através da ficha que os jovens preencheram no primeiro dia de hospedagem, o albergue pôde entrar em contato com seus familiares, que disseram aflitos não ter nenhuma informação sobre o paradeiro de ninguém do grupo.
Depois de meses de investigações, o mistério foi considerado sem solução. Restava aos detetives torcer para que o único “sobrevivente” acordasse do coma e pudesse ajudar no esclarecimento daquela situação absurda.
Seis longos anos depois, o rapaz finalmente despertou. Ficou todo aquele tempo no mesmo quarto do hospital, no décimo primeiro andar. A princípio, sofria de uma leve amnésia: não era capaz de se lembrar das últimas semanas que antecederam o coma. Gradativamente, com ajuda de psicólogos, em poucos dias foi recobrando a memória recente, até chegar o momento que todos aguardavam: fazê-lo recordar dos eventos no albergue. No quarto estavam ele, uma psicóloga, um médico, seus pais e um investigador.
O jovem não se lembrou de imediato. Contudo, suas feições mostravam que ele estava, aos poucos, recordando. Não eram memórias boas. Seu rosto foi desenhando, a cada segundo que passava, um semblante mais sério, preocupado. Sua face empalideceu. O olhar ficou cada vez mais distante e assustado.
Finalmente assumiu uma cara de horror, levou as mãos à cabeça, soltou o berro mais agonizante que as pessoas presentes já haviam ouvido, deu um salto brusco da cama e, antes que alguém pudesse alcançá-lo, atravessou a janela de vidro, que estava fechada, despencando para o chão da rua. Todos correram para a janela.
Lá embaixo, pedaços do vidro cobriam a calçada do hospital.
Não havia nenhum corpo.